Olivia Merquior

 

Olivia Merquior é diretora da Dacri Deviati, presidente do Centro Brasileiro de Estudos em Design de Vestuário e apresentadora do podcast High Low. Entre seus clientes estão o evento Première Vision de Paris e a marca Melissa. Olivia foi curadora e mentora das jovens marcas integrantes das duas edições do Projeto Estufa e consultora de produto das duas seleções do Projeto Top 5 ambos na São Paulo Fashion Week.

 

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

Gosto da leitura de que se vestir é mais do que se cobrir com roupas e acessórios e sim tudo que organiza nosso corpo, aí incluímos as intervenções cirúrgicas, dietas, músculos, tatuagens, etc. Tenho um apreço especial por visões divergentes daquilo que se impõe como normalidade, isso porque quando nos acostumamos com certos padrões, deixamos de questionar como aquilo se instituiu. O questionamento constante me interessa, pois me faz sentir viva. Assim, minha resposta sobre as subjetividades que me mobilizam seria o pensamento de margem. Depois que eles passam a se instituir como regra, perdem sua potência de transformação. Tenho uma frase que resume: “- Se todos falam a mesma coisa, desconfie”.

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja
ser?

Essa resposta resvala na anterior. Gosto de me manter curiosa sobre as definições de feminino, mulher, feminilidade. A busca por uma resposta não me interessa tanto e sim o questionamento contínuo sobre os significados que o nosso mundo e o nosso tempo criam para categorizar as pessoas. Acho fascinante pensar como, quando e por que palavras são inventadas e a partir disso entender onde os conceitos passam a nos identificar e nos aprisionar. Desde que eu nasci tenho ouvido que sou mulher e que existem formas certas e erradas de me relacionar, me vestir, me comportar, tudo para o “bem” da vida em sociedade – mas sempre tive a curiosidade de entender de onde essas regras vieram, uma vez que tinha vontade de experimentar formas diferentes de fazer as coisas. Esse sentimento questionador é muito próprio da juventude e tende a se dissipar com a maturidade, mas te digo que hoje, aos 40 anos, sinto essa vontade, de não me acomodar, aumentar a cada dia. Parece que cada vez devo menos para os outros e me importo menos em provar coisas, isso me liberta para desafiar esse conceito de feminilidade que durante toda a vida tentaram me entubar. rs

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vunerável, sensível e transcentente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

O belo é um conceito muito complexo para ser resumido em algumas linhas, pois ele incorpora uma visão estética própria de um pensamento europeu e cristão. Mas, para definir minha relação com a arte vou fazer uma metáfora com um mito bastante conhecido, o da “caverna de Platão”. Há aqueles no fundo da caverna, na escuridão, os que vivem nas sombras e não conhecem a “verdade”. O mito sugere que eles devem ser ensinados de uma forma que caminhem para a “luz”. Uma vez que eles aprenderam (ou foram doutrinados, na minha visão) eles podem fazer parte daquele mundo elevado, onde estaria o “verdadeiro” belo. Bem resumidamente, ou diria que me interessa mais o que tá acontecendo lá no fundo da caverna, onde as pessoas ainda não foram adestradas para perceber o belo da maneira mais conveniente para o pessoal que está na “luz”.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Tem uma frase que eu digo repetidamente: “se vestir é mostrar para todos suas experiências passadas, o presente que você frequenta e principalmente o mundo que você quer habitar no futuro”. Dessa maneira, gosto de consumir aquilo que comunica minhas convicções em primeira instância, sem precisar de legenda. Por exemplo, eu defendo, verbalmente e também nos meus textos, uma moda autoral, não massificada e principalmente local, por isso, seria no mínimo estranho que meu guarda-roupa fosse entusiasta de marcas estrangeiras e de tendências globais do momento. Fico feliz em abrir meu armário e ver que a grande maioria dos cabides pendura nomes da moda nacional não massificada que tanto admiro.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

Essa resposta é meio triste (rs). Nunca havia pensado nisso, mas acabo de conceber que venho de uma origem muito pouco interessante, principalmente em termos estéticos. Nasci e fui criada dentro da “luz” da “caverna do Platão”, em um mundo “muito normalizado”. Acho que a minha guerra pessoal sempre foi sair dessa bolha, me tirar de certos lugares convenientes, desafiar um destino que já estava montado para mim. A origem, portanto, sempre foi um lugar de onde eu quis fugir, mas acho que esse incômodo constante é o que me inspira a desenvolver um trabalho que ajuda a dar sentido para a minha vida.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias tem um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Eu, durante muito tempo, questionei as atitudes e escolhas de vida da minha mãe. Achava que ela devia ser mais vaidosa, mais ambiciosa, talvez até mais controladora. Acho que na minha juventude sempre quis desafiá-la para saber até que ponto ela me deixaria ir. Não deve ter sido fácil me criar (rs), mas ela sempre dizia: “- Não crio filho para mim e sim para o mundo”. É como se ela tivesse me deixado subir em todas as árvores – as mais perigosas – e mesmo alertando que eu poderia me machucar, ela nunca me impediu de ir. Caí muitas vezes e ouvia um “eu te avisei!” sempre junto de um abraço. Então algo aconteceu, porém, nos últimos anos – os primeiros da minha vida madura – eu passei a admirá-la imensamente. A alegria, a leveza com os outros, a não necessidade de ser o centro das atenções, a facilidade de lidar com todos. Num momento anterior à quarentena, estávamos voltando da praia de metro, era fim de tarde e o vagão estava cheio, em um espaço de algumas estações, simplesmente ela estava fazendo piada e fazendo desde o menino vendedor de mate até a gatinha zona sul se esbaldarem. Ela desceu antes de mim e logo que saiu todo mundo comentava: “- Gente, que figura a sua mãe”. Tenho muito orgulho disso. (Nossa, estou me esvaindo em lágrimas, rs).

 

ESCOLHAS DA OLIVIA MERQUIOR: