Mayra Andrade

Créditos: Allen Coleman

Mayra Andrade é uma cantora e compositora cabo-verdiana que identifica sua música como um retrato de suas raízes, seus conjuntos de experiências, do ela já foi e do que hoje é. Apreciadora de sua própria independência, desde cedo percebeu o mundo a sua volta como sua maior fonte de inspiração. Seu último álbum “Manga” (2019) está disponível nas plataformas digitais.

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

A minha história pessoal me jogou no mundo desde muito cedo. O meu percurso foi todo definido pela viagem, pela descoberta de uma nova cultura, de um novo idioma, de uma nova forma de se vestir, de orar, de comer de dançar. Isso se dava a cada dois ou três anos da minha vida, lembro que quando cheguei no Senegal, em 1991, aos 6 anos de idade e de como me marcou a forma como as pessoas se vestiam. Para mim todos pareciam reis e rainhas com os seus “bubus” senegaleses. E eu que venho de Cabo Verde, onde nos vestimos de uma forma muito ocidental, fiquei cativada ao descobrir que nem tudo o que é padrão vai ser padrão na casa do vizinho, na rua do lado ou em um país diferente. Me vestir sempre foi a tradução de uma expressão muito livre. Recordo que desde criança conseguia admirar o que era diferente, e perceber a diferença como uma riqueza. Talvez seja esse o motivo pelo qual faço música, a curiosidade pelo que é diferente. Por outro lado, eu sou uma pessoa prática e aprecio estar confortável quando me visto, e é por isso que eu gosto da sua marca. Acho bonita a liberdade de ser várias coisas através da roupa e ao mesmo tempo se respeitar através dela. Enfim, acho super interessante quando você consegue mesclar o mundo no seu jeito de se vestir mantendo uma elegância que pode ser ou exuberante ou muito sóbria. Ter o mundo dentro, levar o mundo dentro, ser permeável ao mundo, com certeza, definiu quase completamente o meu jeito de me vestir desde cedo. Nem sempre a gente consegue traduzir todas as nossas vivências através da roupa, mas mesmo que eu esteja usando uma calça jeans e uma camisa branca, ou qualquer outra coisa, me sentirei diferente, bonita… inteira.

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja
ser?

Me sinto mais alinhada com a minha feminilidade do que nunca, no sentido de reivindicá-la com mais força, com menos reservas ou com menos pudor. Isso também vem da minha educação, da minha herança familiar. Acho que essa sensualidade feminina também está muito presente em “Manga”, meu último disco. Venho de uma família de mulheres muito fortes e pra mim a feminilidade rima com força, com poder. Nesse caso, o feminino muitas vezes se traduzia por uma forma de dever, responsabilidade, mas muito pouco de abraçar a sua própria sensualidade, sua liberdade de ser mulher, ser quem você é, independente do sexo. Fui aos poucos conquistando a percepção de que a feminilidade tem a ver com liberdade de ser humana, de ser gente. Para mim, tem muito a ver com você poder ser inteira. Por que quando eu penso em mim não penso no ser mais feminino do mundo, embora as pessoas que me conhecem digam que eu sou extremamente feminina. Tem dias que eu me sinto feminina e tem outros que me sinto masculina. Acho que tenho uma feminilidade andrógina e essa androgenia não é necessariamente visivel, mas é como me sinto no dia a dia. Acho isso lindo pois a feminilidade não precisa ter limites. Lembro-me, por exemplo de quando brincava com meu pai, nós brincávamos muito e eu amava usar as camisas dele. Para mim, usar uma camisa masculina era a coisa mais legal, mais diferente, mais sexy do mundo. Acabei herdando algumas de suas camisas. Também me lembro de gostar de usar o perfume dele e até hoje gosto de perfumes masculinos. Sou apaixonada por fragrâncias e por isso sou muito seletiva nas minhas escolhas, mas sempre tenho perfumes masculinos entre as minhas preferências. Então a minha feminilidade é essa, é inteira, cada dia mais livre, cada dia com menos fronteiras e menos contornos… É apenas ser.

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vunerável, sensível e transcentente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

Fui sempre uma artista que precisou se sentir conectada com a realidade, com o dia a dia e com as minhas vivências fora da música. Vejo o belo no mundo, nas pessoas, na natureza, nessa linha que conecta o céu e a terra. E também vejo muita beleza no meu povo. O povo cabo-verdiano é muito bonito em muitos aspectos. Existe um sorriso muito genuíno no rosto dessas pessoas que me encanta. A nossa resiliência, a forma como nos construímos, foi o que sempre me tocou, são as minhas raízes. Pra mim, beleza é resiliência, é um sorriso, é gente de verdade, é a natureza. Beleza é conhecer a minha história, é o amor e a esperança que eu tenho no ser humano. E isso tudo me inspira na minha música.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Eu tenho me ligado cada vez mais à moda por uma questão de entendimento de que uma mensagem se passa através de vários canais. Ou seja, cada vez que me comunico através da minha música, através de um disco, ou de um show, mais eu tenho a consciência de que é importante se vestir de um tal jeito para traduzir determinada emoção. Então a moda que eu gosto de consumir tanto na vida quanto no palco é algo que sustenta essas emoções. No cotidiano sou muito prática e tenho optado cada vez mais por comprar menos e melhor. Materiais que sejam mais respeitosos com o ecossistema e que tenham mais qualidade. Hoje busco por peças que possam estar comigo num período mais longo de tempo. Eu nunca fui muito da moda, aprecio mais ter um estilo que seja meu. Nem sempre compreendo que estilo é esse, porém o visto com o coração. Particularmente não sigo as fashion weeks, muitas marcas ou muitos designers. Costumo me apegar alguns, poucos, que me conquistam com suas propostas. Gosto de consumir uma moda que conversa com a minha geração, que conta uma história: como uma crônica sobre o cotidiano, uma crônica social sobre o que acontece no mundo de hoje, que traga uma história, uma herança. Como no seu caso, Ângela, te vejo como um cruzamento entre modernidade, raízes e poesia e é isso que eu amo muito na sua marca. Ao me vestir gosto de misturar peças básicas e práticas com coisas únicas e genuínas.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

Eu sou o lugar de onde eu venho!
Eu sou Cabo Verde, e o que é Cabo Verde? É uma mistura de tudo o que passou por lá, essencialmente de homens e mulheres africanos arrancados do continente, europeus portugueses, mas não só, somos a mistura de todos os navios que passaram por lá… Cabo Verde era um porto importante no comércio de escravos e depois no comércio de uma forma geral. A nossa insularidade é um traço muito forte e que define a nossa identidade como povo. Esse mar que nos inspira, que nos rodeia também é vivido como uma prisão, como algo do que nos mantém longe daqueles que amamos. Mas, que também é um mar de esperança, de ver o regresso daqueles que partiram. Temos uma antiga história ligada a imigração e vários episódios de fomes no país. Cabo Verde chegou a perder um grande percentual da sua população em vários momentos, principalmente nas décadas de 40 e 50, do séc 20, até a luta pela independência, em que meu pai foi um dos tantos combatentes. Quando falo da resiliência do povo cabo-verdiano muito tem a ver com essa história complexa. A luta pela independência está muito presente nessa identidade cabo-verdiana soberana. É esse amor quase incondicional que temos por aqueles dez grãozinhos de terra que deus espalhou pelo mar, como diz a canção… Então, esse DNA cabo-verdiano me inspira muito. Tive a sorte de ter vivido dentro e fora de Cabo Verde em diversos momentos da minha vida, porque com isso consegui viver minha caboverdianidade e ter tido lá a infância e adolescência mais lindas do mundo. Mas ter vivido Cabo Verde através de uma visão externa, também foi muito importante para entender a grande diáspora que a maioria dos cabo-verdianos vivem. Costumamos dizer que a 11ª ilha de Cabo Verde são os filhos da diáspora. Tudo isso se traduz no que eu faço, mesmo quando faço uma música menos tradicional busco os ingredientes chave para que essa música nunca perca sua identidade cabo-verdiana. Para que as pessoas sempre identifiquem meu trabalho a essas ilhas, e para que os créditos sempre recaiam sobre Cabo Verde.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias tem um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Venho de uma família majoritariamente feminina, temos mais mulheres do que homens o que a torna uma família claramente matriarcal. Me lembro muito bem da minha bisavó, ela faleceu quando eu tinha 12 anos, como sendo uma mulher extremamente forte. Atualmente a minha avó é o pilar da nossa família, seu nome é Isabel e eu a chamo de Abelha rainha pois ela é uma imperadora do amor, aquela que ampara todos embaixo das suas asas. Minha avó teve seis filhas, então cresci no meio das saias e das calças da minha mãe, das minhas tias, e dela própria, o que sempre me transmitiu um sentido de pertencimento e união muito grande. Eu cresci com o afago de pertencer a uma tribo de amazonas e isso te prepara para ver e enfrentar o mundo. Me sinto uma mulher forte e amparada, graças a tudo isso!
A minha avó já era uma mulher que trabalhava, era assistente social, então todas as mulheres da minha família são muito independentes, todas se formaram e trabalham em suas funções. Sinto também, que a dignidade e honestidade da minha avó e da minha mãe, são características que me acompanham até hoje e que me norteiam a ser quem eu sou.

 

ESCOLHAS DA MAYRA ANDRADE: