Luanda Vieira

Luanda Vieira é capricorniana, jornalista, fotógrafa e bailarina clássica. Ela costuma dizer que esta mistura é coragem e poesia ao mesmo tempo. Apaixonada por street style e observadora de comportamentos, atua como Editora de Moda da Glamour e é a representante do Brasil no Comitê Global de Diversidade e Inclusão da Condé Nast.

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

Ser bailarina durante 20 anos, com direito a roupas justas para evidenciar o corpo magro e a obsessão pelo peso, me fizeram caminhar para o lado oposto na moda. Gosto de usar tudo oversized. Aliás, quanto mais largo melhor. Foi uma escolha para me esconder após tantos anos sendo julgada pelo peso; mas que se tornou a minha marca registrada, onde eu me vejo e encontro. O gosto pelo “largo” também revela o meu jeitão livre e solitário. Gosto de seguir do meu jeito, falar no meu momento, me aproximar no meu tempo. Aos 31, principalmente durante a quarentena, tenho pensado muito nas interferências externas que me fizeram assim. Ainda não tenho uma conclusão, mas até agora tudo me leva às discussões sobre raça e o lugar do negro na sociedade ser diferente do que eu sempre busquei para mim. E consegui.

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja ser?

Mudar de cabelo sempre que me dá vontade, sem pensar no que agrada o externo, é o meu maior contato com a minha feminilidade, que pra mim significa ser livre. Me sinto viva com todo o processo entre começar a sentir que preciso mudar, procurar referências e “trocar” de imagem. Raspei e passei pela trajetória de me descobrir feliz comigo, mesmo com todo machismo em relação ao corte. Depois disso, qualquer trança colorida ou voltar a usar o meu cabelo natural nunca mais foi uma questão.

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vulnerável, sensível e transcendente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

A ideia de belo está sempre mudando por aqui. Hoje tem sido o coletivo; a voz de todas nós juntas. No trabalho: dar visibilidade e ocupar espaço.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Acredito que como todo mundo, fui mudando e me reconhecendo em histórias ao longo dos anos. Contar e ouvir histórias, aliás, é o meu maior tesouro e isso também vale para o meu armário. Tenho consumido histórias que me identifico. Histórias exclusivas. Hoje, principalmente neste momento, priorizo a moda de afroempreendedores e pequenos produtores.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

A força e a alegria do coletivo. Crescer num bairro completamente residencial, em São Paulo, me permitiu viver as diferenças da rua, conhecer os meus vizinhos e passar os finais de semana correndo para cima e para baixo. Com certeza vem daí a minha paixão pelo street style. O comportamento que surge da rua me emociona. Revezar este tempo com o balé clássico na infância também me trouxe o encanto pelos figurinos e a história… da dança, da arte, da moda, da música.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias têm um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Nossa! São tantas coisas, mas vejo na minha vó e na minha mãe um senso enorme de justiça e honestidade o tempo inteiro. E é esse mesmo senso que me guia nas relações e no trabalho. Hoje entendo que toda essa preocupação com a transparência vem da desconfiança da nossa cor, mas nos torna gigantes.

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