Camila Yahn

Créditos: Hick Duarte

Camila Yahn é formada em artes cênicas, mas entrou no jornalismo de moda através de seu primeiro trabalho em 2000, com Érika Palomino, com quem ficou por cinco anos. Depois foi editora assistente de moda da Folha de S.Paulo, ao lado do editor Alcino Leite Neto, foi editora executiva da revista Moda, de Joyce Pascovitch em 2009. E desde 2020 é editora de conteúdo da plataforma FFW. Também fez por seis anos o seminário internacional Pense Moda, de 2007 a 2012. E hoje, também, trabalha como consultora de moda. Tem um instagram com os desfiles mais icônicos da moda internacional, com foco nos anos 90 e 2000, o @iconicfashionshows e também um podcast com o Augusto chamado Fashion Weekly.

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

Já sofri muito com ditadura estética, desde pequena me falavam que precisava emagrecer e olha que não era uma criança gorda. Naturalmente isso grudou em mim e eu passei a vida “precisando” emagrecer e mudar meu corpo pra se aproximar mais dos das minhas amigas, das atrizes das novelas, das cantoras e modelos. Isso cortou muitas possibilidades pra mim em relação à moda porque, por exemplo, eu não usava biquíni na frente das pessoas, até hoje não uso nada sem manga, só pra mencionar algumas coisas. Mas com o passar dos anos, nós vamos amadurecendo, nos conhecendo melhor e também encontrando novos exemplos de pessoas, mulheres ou não, que nos ensinam a ir quebrando nossos próprios “pré-conceitos”. Por muitos anos, eu quis ser quem não podia e ter o que não podia, mas já faz um tempo que sei exatamente quem sou, do que gosto e como vejo o mundo. Difícil alguém me tirar do meu caminho hoje ; )

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja ser?

Eu já passei por diversas fases de expressar isso e, por muito tempo, era sempre uma resposta a como o outro queria me ver. Quando era adolescente e comecei a sair, eu adaptava meu estilo e personalidade dependendo da “tribo” com quem andava, porque também sempre circulei muito entre turmas bem diferentes umas das outras. Mas sentia que eu era a louca entre as patricinhas e a patricinha entre os loucos rsrs. Mas claro, apenas esticando as possibilidades que já existiam dentro de mim, sem ser desonesta comigo mesma. Depois dos 30 a gente ganha uma maturidade, depois dos 40 então é maravilhoso porque finalmente sabemos (no meu caso pelo menos) quem somos e como isso nos custa caro. Portanto, depois de muito aprendizado, muitas brigas comigo mesma, hoje eu sou quem eu desejo ser modo full, aceitando meus pontos fracos, mas gostando cada vez mais das minhas qualidades.

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vulnerável, sensível e transcendente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

Sou muito inspirada pelo belo, não só como imagem, mas também enquanto gesto. Pode ser fotografia, moda, arte, dança, literatura, um filme… Pode ser uma pessoa ou uma cena que se constrói na sua frente quando você menos imagina… Sou facilmente tocada por questões estéticas e todas essas expressões culturais e criativas podem influenciar meu trabalho, seja uma simples matéria que sou inspirada a escrever ou um aprendizado que levo pra vida, um conhecimento que vai aumentando minha bagagem cultural. Pessoas com outras histórias de vida diferentes da minha, também me ensinam e me inspiram muito. Os meus melhores trabalhos são os que fiz sob algum tipo de emoção. Não consigo ser uma pessoa genérica com uma fórmula que é aplicada a tudo. Pra mim, se não tem emoção ou paixão como combustível, fica mais difícil.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Gosto muito das marcas que praticam o slow fashion, que estão atentas e têm o controle de sua cadeia de produção. Marcas nas quais podemos confiar 100% em sua integridade e em suas mensagens. Mas também gosto de marcas que trazem uma proposta nova em termos de criação, estilistas que tomam riscos e desafiam o mercado, que pensam o futuro da moda e que são firmes na sua proposta criativa. Eu sou uma pessoa prática e não gosto de me sentir desconfortável com alguma peça, seja roupa ou sapato. Mãe de três filhos, vou da reunião à porta da escola à brincar na grama e arrumar a casa. Agora na quarentena, me arrumo para fazer as lives, mas em seguida estou lavando louça, fazendo algo da casa ou relacionada às crianças. E não dá pra ficar trocando de roupa o tempo inteiro. Por isso, tenho um guarda roupa enxuto e funcional, mas que também representa o meu estilo, que hoje é mais básico e privilegia o conforto e o bem estar no vestir.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

Eu sou de São Paulo e sempre fui muito urbana. Venho de uma casa onde todo mundo que entrava se sentia bem. Meus pais conheciam muitos artistas, eram muito animados e sempre tinha jantares e festas na minha casa. A gente também viaja nos fins de semana, então desde pequena, o mar e o campo e as experiências de liberdade que temos nesses lugares fizeram parte da minha vida. Eu trago dessas viagens a maior sensação de acolhimento que já senti, de estar num lugar profundamente bonito e me sentindo profundamente segura. Da minha casa e família trago muitos aprendizados, um olhar sem preconceito e um bom e eclético gosto musical (modéstia à parte rsrs). Todas essas vivências, e minhas experiências de adolescência e juventude formaram quem eu sou hoje. A forma como a gente se vestia, o universo musical e artístico que descobri desde muito cedo, sem saber, me prepararam para eu estar hoje trabalhando com moda.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias tem um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Minha avó foi uma grande mulher. Super rigorosa e determinada, mas muito amorosa. Como minha mãe era mais relax, foi minha avó que me ensinou como me comportar propriamente, coisas relacionadas ao que conhecemos de boa educação. Ela que me incentivou muito pra aprender inglês. Toda semana chegava em casa com a revista de música Bizz Letras Traduzidas porque sabia que eu adorava e lá aprendia leitura, pronúncia e tradução. Minha avó sonhava grande pra mim, queria que eu conhecesse o mundo, etc, então fazia muita coisa no sentido de me ajudar a chegar lá mais rápido, seja onde for esse “lá” que ela imaginou. Mas também não posso deixar de mencionar minha mãe, uma pessoa guerreira, adorável, alegre, generosa, criativa, com um incrível talento manual e que me deu muita liberdade através da confiança que tinha em mim. Até hoje é uma das minhas maiores incentivadoras e apoiadoras

 

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