Camila Yahn

Créditos: Hick Duarte

Camila Yahn é formada em artes cênicas, mas entrou no jornalismo de moda através de seu primeiro trabalho em 2000, com Érika Palomino, com quem ficou por cinco anos. Depois foi editora assistente de moda da Folha de S.Paulo, ao lado do editor Alcino Leite Neto, foi editora executiva da revista Moda, de Joyce Pascovitch em 2009. E desde 2020 é editora de conteúdo da plataforma FFW. Também fez por seis anos o seminário internacional Pense Moda, de 2007 a 2012. E hoje, também, trabalha como consultora de moda. Tem um instagram com os desfiles mais icônicos da moda internacional, com foco nos anos 90 e 2000, o @iconicfashionshows e também um podcast com o Augusto chamado Fashion Weekly.

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

Já sofri muito com ditadura estética, desde pequena me falavam que precisava emagrecer e olha que não era uma criança gorda. Naturalmente isso grudou em mim e eu passei a vida “precisando” emagrecer e mudar meu corpo pra se aproximar mais dos das minhas amigas, das atrizes das novelas, das cantoras e modelos. Isso cortou muitas possibilidades pra mim em relação à moda porque, por exemplo, eu não usava biquíni na frente das pessoas, até hoje não uso nada sem manga, só pra mencionar algumas coisas. Mas com o passar dos anos, nós vamos amadurecendo, nos conhecendo melhor e também encontrando novos exemplos de pessoas, mulheres ou não, que nos ensinam a ir quebrando nossos próprios “pré-conceitos”. Por muitos anos, eu quis ser quem não podia e ter o que não podia, mas já faz um tempo que sei exatamente quem sou, do que gosto e como vejo o mundo. Difícil alguém me tirar do meu caminho hoje ; )

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja ser?

Eu já passei por diversas fases de expressar isso e, por muito tempo, era sempre uma resposta a como o outro queria me ver. Quando era adolescente e comecei a sair, eu adaptava meu estilo e personalidade dependendo da “tribo” com quem andava, porque também sempre circulei muito entre turmas bem diferentes umas das outras. Mas sentia que eu era a louca entre as patricinhas e a patricinha entre os loucos rsrs. Mas claro, apenas esticando as possibilidades que já existiam dentro de mim, sem ser desonesta comigo mesma. Depois dos 30 a gente ganha uma maturidade, depois dos 40 então é maravilhoso porque finalmente sabemos (no meu caso pelo menos) quem somos e como isso nos custa caro. Portanto, depois de muito aprendizado, muitas brigas comigo mesma, hoje eu sou quem eu desejo ser modo full, aceitando meus pontos fracos, mas gostando cada vez mais das minhas qualidades.

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vulnerável, sensível e transcendente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

Sou muito inspirada pelo belo, não só como imagem, mas também enquanto gesto. Pode ser fotografia, moda, arte, dança, literatura, um filme… Pode ser uma pessoa ou uma cena que se constrói na sua frente quando você menos imagina… Sou facilmente tocada por questões estéticas e todas essas expressões culturais e criativas podem influenciar meu trabalho, seja uma simples matéria que sou inspirada a escrever ou um aprendizado que levo pra vida, um conhecimento que vai aumentando minha bagagem cultural. Pessoas com outras histórias de vida diferentes da minha, também me ensinam e me inspiram muito. Os meus melhores trabalhos são os que fiz sob algum tipo de emoção. Não consigo ser uma pessoa genérica com uma fórmula que é aplicada a tudo. Pra mim, se não tem emoção ou paixão como combustível, fica mais difícil.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Gosto muito das marcas que praticam o slow fashion, que estão atentas e têm o controle de sua cadeia de produção. Marcas nas quais podemos confiar 100% em sua integridade e em suas mensagens. Mas também gosto de marcas que trazem uma proposta nova em termos de criação, estilistas que tomam riscos e desafiam o mercado, que pensam o futuro da moda e que são firmes na sua proposta criativa. Eu sou uma pessoa prática e não gosto de me sentir desconfortável com alguma peça, seja roupa ou sapato. Mãe de três filhos, vou da reunião à porta da escola à brincar na grama e arrumar a casa. Agora na quarentena, me arrumo para fazer as lives, mas em seguida estou lavando louça, fazendo algo da casa ou relacionada às crianças. E não dá pra ficar trocando de roupa o tempo inteiro. Por isso, tenho um guarda roupa enxuto e funcional, mas que também representa o meu estilo, que hoje é mais básico e privilegia o conforto e o bem estar no vestir.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

Eu sou de São Paulo e sempre fui muito urbana. Venho de uma casa onde todo mundo que entrava se sentia bem. Meus pais conheciam muitos artistas, eram muito animados e sempre tinha jantares e festas na minha casa. A gente também viaja nos fins de semana, então desde pequena, o mar e o campo e as experiências de liberdade que temos nesses lugares fizeram parte da minha vida. Eu trago dessas viagens a maior sensação de acolhimento que já senti, de estar num lugar profundamente bonito e me sentindo profundamente segura. Da minha casa e família trago muitos aprendizados, um olhar sem preconceito e um bom e eclético gosto musical (modéstia à parte rsrs). Todas essas vivências, e minhas experiências de adolescência e juventude formaram quem eu sou hoje. A forma como a gente se vestia, o universo musical e artístico que descobri desde muito cedo, sem saber, me prepararam para eu estar hoje trabalhando com moda.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias tem um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Minha avó foi uma grande mulher. Super rigorosa e determinada, mas muito amorosa. Como minha mãe era mais relax, foi minha avó que me ensinou como me comportar propriamente, coisas relacionadas ao que conhecemos de boa educação. Ela que me incentivou muito pra aprender inglês. Toda semana chegava em casa com a revista de música Bizz Letras Traduzidas porque sabia que eu adorava e lá aprendia leitura, pronúncia e tradução. Minha avó sonhava grande pra mim, queria que eu conhecesse o mundo, etc, então fazia muita coisa no sentido de me ajudar a chegar lá mais rápido, seja onde for esse “lá” que ela imaginou. Mas também não posso deixar de mencionar minha mãe, uma pessoa guerreira, adorável, alegre, generosa, criativa, com um incrível talento manual e que me deu muita liberdade através da confiança que tinha em mim. Até hoje é uma das minhas maiores incentivadoras e apoiadoras

 

ESCOLHAS DA CAMILA YAHN:

Mayra Andrade

Créditos: Allen Coleman

Mayra Andrade é uma cantora e compositora cabo-verdiana que identifica sua música como um retrato de suas raízes, seus conjuntos de experiências, do ela já foi e do que hoje é. Apreciadora de sua própria independência, desde cedo percebeu o mundo a sua volta como sua maior fonte de inspiração. Seu último álbum “Manga” (2019) está disponível nas plataformas digitais.

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

A minha história pessoal me jogou no mundo desde muito cedo. O meu percurso foi todo definido pela viagem, pela descoberta de uma nova cultura, de um novo idioma, de uma nova forma de se vestir, de orar, de comer de dançar. Isso se dava a cada dois ou três anos da minha vida, lembro que quando cheguei no Senegal, em 1991, aos 6 anos de idade e de como me marcou a forma como as pessoas se vestiam. Para mim todos pareciam reis e rainhas com os seus “bubus” senegaleses. E eu que venho de Cabo Verde, onde nos vestimos de uma forma muito ocidental, fiquei cativada ao descobrir que nem tudo o que é padrão vai ser padrão na casa do vizinho, na rua do lado ou em um país diferente. Me vestir sempre foi a tradução de uma expressão muito livre. Recordo que desde criança conseguia admirar o que era diferente, e perceber a diferença como uma riqueza. Talvez seja esse o motivo pelo qual faço música, a curiosidade pelo que é diferente. Por outro lado, eu sou uma pessoa prática e aprecio estar confortável quando me visto, e é por isso que eu gosto da sua marca. Acho bonita a liberdade de ser várias coisas através da roupa e ao mesmo tempo se respeitar através dela. Enfim, acho super interessante quando você consegue mesclar o mundo no seu jeito de se vestir mantendo uma elegância que pode ser ou exuberante ou muito sóbria. Ter o mundo dentro, levar o mundo dentro, ser permeável ao mundo, com certeza, definiu quase completamente o meu jeito de me vestir desde cedo. Nem sempre a gente consegue traduzir todas as nossas vivências através da roupa, mas mesmo que eu esteja usando uma calça jeans e uma camisa branca, ou qualquer outra coisa, me sentirei diferente, bonita… inteira.

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja
ser?

Me sinto mais alinhada com a minha feminilidade do que nunca, no sentido de reivindicá-la com mais força, com menos reservas ou com menos pudor. Isso também vem da minha educação, da minha herança familiar. Acho que essa sensualidade feminina também está muito presente em “Manga”, meu último disco. Venho de uma família de mulheres muito fortes e pra mim a feminilidade rima com força, com poder. Nesse caso, o feminino muitas vezes se traduzia por uma forma de dever, responsabilidade, mas muito pouco de abraçar a sua própria sensualidade, sua liberdade de ser mulher, ser quem você é, independente do sexo. Fui aos poucos conquistando a percepção de que a feminilidade tem a ver com liberdade de ser humana, de ser gente. Para mim, tem muito a ver com você poder ser inteira. Por que quando eu penso em mim não penso no ser mais feminino do mundo, embora as pessoas que me conhecem digam que eu sou extremamente feminina. Tem dias que eu me sinto feminina e tem outros que me sinto masculina. Acho que tenho uma feminilidade andrógina e essa androgenia não é necessariamente visivel, mas é como me sinto no dia a dia. Acho isso lindo pois a feminilidade não precisa ter limites. Lembro-me, por exemplo de quando brincava com meu pai, nós brincávamos muito e eu amava usar as camisas dele. Para mim, usar uma camisa masculina era a coisa mais legal, mais diferente, mais sexy do mundo. Acabei herdando algumas de suas camisas. Também me lembro de gostar de usar o perfume dele e até hoje gosto de perfumes masculinos. Sou apaixonada por fragrâncias e por isso sou muito seletiva nas minhas escolhas, mas sempre tenho perfumes masculinos entre as minhas preferências. Então a minha feminilidade é essa, é inteira, cada dia mais livre, cada dia com menos fronteiras e menos contornos… É apenas ser.

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vunerável, sensível e transcentente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

Fui sempre uma artista que precisou se sentir conectada com a realidade, com o dia a dia e com as minhas vivências fora da música. Vejo o belo no mundo, nas pessoas, na natureza, nessa linha que conecta o céu e a terra. E também vejo muita beleza no meu povo. O povo cabo-verdiano é muito bonito em muitos aspectos. Existe um sorriso muito genuíno no rosto dessas pessoas que me encanta. A nossa resiliência, a forma como nos construímos, foi o que sempre me tocou, são as minhas raízes. Pra mim, beleza é resiliência, é um sorriso, é gente de verdade, é a natureza. Beleza é conhecer a minha história, é o amor e a esperança que eu tenho no ser humano. E isso tudo me inspira na minha música.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Eu tenho me ligado cada vez mais à moda por uma questão de entendimento de que uma mensagem se passa através de vários canais. Ou seja, cada vez que me comunico através da minha música, através de um disco, ou de um show, mais eu tenho a consciência de que é importante se vestir de um tal jeito para traduzir determinada emoção. Então a moda que eu gosto de consumir tanto na vida quanto no palco é algo que sustenta essas emoções. No cotidiano sou muito prática e tenho optado cada vez mais por comprar menos e melhor. Materiais que sejam mais respeitosos com o ecossistema e que tenham mais qualidade. Hoje busco por peças que possam estar comigo num período mais longo de tempo. Eu nunca fui muito da moda, aprecio mais ter um estilo que seja meu. Nem sempre compreendo que estilo é esse, porém o visto com o coração. Particularmente não sigo as fashion weeks, muitas marcas ou muitos designers. Costumo me apegar alguns, poucos, que me conquistam com suas propostas. Gosto de consumir uma moda que conversa com a minha geração, que conta uma história: como uma crônica sobre o cotidiano, uma crônica social sobre o que acontece no mundo de hoje, que traga uma história, uma herança. Como no seu caso, Ângela, te vejo como um cruzamento entre modernidade, raízes e poesia e é isso que eu amo muito na sua marca. Ao me vestir gosto de misturar peças básicas e práticas com coisas únicas e genuínas.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

Eu sou o lugar de onde eu venho!
Eu sou Cabo Verde, e o que é Cabo Verde? É uma mistura de tudo o que passou por lá, essencialmente de homens e mulheres africanos arrancados do continente, europeus portugueses, mas não só, somos a mistura de todos os navios que passaram por lá… Cabo Verde era um porto importante no comércio de escravos e depois no comércio de uma forma geral. A nossa insularidade é um traço muito forte e que define a nossa identidade como povo. Esse mar que nos inspira, que nos rodeia também é vivido como uma prisão, como algo do que nos mantém longe daqueles que amamos. Mas, que também é um mar de esperança, de ver o regresso daqueles que partiram. Temos uma antiga história ligada a imigração e vários episódios de fomes no país. Cabo Verde chegou a perder um grande percentual da sua população em vários momentos, principalmente nas décadas de 40 e 50, do séc 20, até a luta pela independência, em que meu pai foi um dos tantos combatentes. Quando falo da resiliência do povo cabo-verdiano muito tem a ver com essa história complexa. A luta pela independência está muito presente nessa identidade cabo-verdiana soberana. É esse amor quase incondicional que temos por aqueles dez grãozinhos de terra que deus espalhou pelo mar, como diz a canção… Então, esse DNA cabo-verdiano me inspira muito. Tive a sorte de ter vivido dentro e fora de Cabo Verde em diversos momentos da minha vida, porque com isso consegui viver minha caboverdianidade e ter tido lá a infância e adolescência mais lindas do mundo. Mas ter vivido Cabo Verde através de uma visão externa, também foi muito importante para entender a grande diáspora que a maioria dos cabo-verdianos vivem. Costumamos dizer que a 11ª ilha de Cabo Verde são os filhos da diáspora. Tudo isso se traduz no que eu faço, mesmo quando faço uma música menos tradicional busco os ingredientes chave para que essa música nunca perca sua identidade cabo-verdiana. Para que as pessoas sempre identifiquem meu trabalho a essas ilhas, e para que os créditos sempre recaiam sobre Cabo Verde.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias tem um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Venho de uma família majoritariamente feminina, temos mais mulheres do que homens o que a torna uma família claramente matriarcal. Me lembro muito bem da minha bisavó, ela faleceu quando eu tinha 12 anos, como sendo uma mulher extremamente forte. Atualmente a minha avó é o pilar da nossa família, seu nome é Isabel e eu a chamo de Abelha rainha pois ela é uma imperadora do amor, aquela que ampara todos embaixo das suas asas. Minha avó teve seis filhas, então cresci no meio das saias e das calças da minha mãe, das minhas tias, e dela própria, o que sempre me transmitiu um sentido de pertencimento e união muito grande. Eu cresci com o afago de pertencer a uma tribo de amazonas e isso te prepara para ver e enfrentar o mundo. Me sinto uma mulher forte e amparada, graças a tudo isso!
A minha avó já era uma mulher que trabalhava, era assistente social, então todas as mulheres da minha família são muito independentes, todas se formaram e trabalham em suas funções. Sinto também, que a dignidade e honestidade da minha avó e da minha mãe, são características que me acompanham até hoje e que me norteiam a ser quem eu sou.

 

ESCOLHAS DA MAYRA ANDRADE:

Olivia Merquior

 

Olivia Merquior é diretora da Dacri Deviati, presidente do Centro Brasileiro de Estudos em Design de Vestuário e apresentadora do podcast High Low. Entre seus clientes estão o evento Première Vision de Paris e a marca Melissa. Olivia foi curadora e mentora das jovens marcas integrantes das duas edições do Projeto Estufa e consultora de produto das duas seleções do Projeto Top 5 ambos na São Paulo Fashion Week.

 

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

Gosto da leitura de que se vestir é mais do que se cobrir com roupas e acessórios e sim tudo que organiza nosso corpo, aí incluímos as intervenções cirúrgicas, dietas, músculos, tatuagens, etc. Tenho um apreço especial por visões divergentes daquilo que se impõe como normalidade, isso porque quando nos acostumamos com certos padrões, deixamos de questionar como aquilo se instituiu. O questionamento constante me interessa, pois me faz sentir viva. Assim, minha resposta sobre as subjetividades que me mobilizam seria o pensamento de margem. Depois que eles passam a se instituir como regra, perdem sua potência de transformação. Tenho uma frase que resume: “- Se todos falam a mesma coisa, desconfie”.

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja
ser?

Essa resposta resvala na anterior. Gosto de me manter curiosa sobre as definições de feminino, mulher, feminilidade. A busca por uma resposta não me interessa tanto e sim o questionamento contínuo sobre os significados que o nosso mundo e o nosso tempo criam para categorizar as pessoas. Acho fascinante pensar como, quando e por que palavras são inventadas e a partir disso entender onde os conceitos passam a nos identificar e nos aprisionar. Desde que eu nasci tenho ouvido que sou mulher e que existem formas certas e erradas de me relacionar, me vestir, me comportar, tudo para o “bem” da vida em sociedade – mas sempre tive a curiosidade de entender de onde essas regras vieram, uma vez que tinha vontade de experimentar formas diferentes de fazer as coisas. Esse sentimento questionador é muito próprio da juventude e tende a se dissipar com a maturidade, mas te digo que hoje, aos 40 anos, sinto essa vontade, de não me acomodar, aumentar a cada dia. Parece que cada vez devo menos para os outros e me importo menos em provar coisas, isso me liberta para desafiar esse conceito de feminilidade que durante toda a vida tentaram me entubar. rs

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vunerável, sensível e transcentente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

O belo é um conceito muito complexo para ser resumido em algumas linhas, pois ele incorpora uma visão estética própria de um pensamento europeu e cristão. Mas, para definir minha relação com a arte vou fazer uma metáfora com um mito bastante conhecido, o da “caverna de Platão”. Há aqueles no fundo da caverna, na escuridão, os que vivem nas sombras e não conhecem a “verdade”. O mito sugere que eles devem ser ensinados de uma forma que caminhem para a “luz”. Uma vez que eles aprenderam (ou foram doutrinados, na minha visão) eles podem fazer parte daquele mundo elevado, onde estaria o “verdadeiro” belo. Bem resumidamente, ou diria que me interessa mais o que tá acontecendo lá no fundo da caverna, onde as pessoas ainda não foram adestradas para perceber o belo da maneira mais conveniente para o pessoal que está na “luz”.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Tem uma frase que eu digo repetidamente: “se vestir é mostrar para todos suas experiências passadas, o presente que você frequenta e principalmente o mundo que você quer habitar no futuro”. Dessa maneira, gosto de consumir aquilo que comunica minhas convicções em primeira instância, sem precisar de legenda. Por exemplo, eu defendo, verbalmente e também nos meus textos, uma moda autoral, não massificada e principalmente local, por isso, seria no mínimo estranho que meu guarda-roupa fosse entusiasta de marcas estrangeiras e de tendências globais do momento. Fico feliz em abrir meu armário e ver que a grande maioria dos cabides pendura nomes da moda nacional não massificada que tanto admiro.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

Essa resposta é meio triste (rs). Nunca havia pensado nisso, mas acabo de conceber que venho de uma origem muito pouco interessante, principalmente em termos estéticos. Nasci e fui criada dentro da “luz” da “caverna do Platão”, em um mundo “muito normalizado”. Acho que a minha guerra pessoal sempre foi sair dessa bolha, me tirar de certos lugares convenientes, desafiar um destino que já estava montado para mim. A origem, portanto, sempre foi um lugar de onde eu quis fugir, mas acho que esse incômodo constante é o que me inspira a desenvolver um trabalho que ajuda a dar sentido para a minha vida.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias tem um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Eu, durante muito tempo, questionei as atitudes e escolhas de vida da minha mãe. Achava que ela devia ser mais vaidosa, mais ambiciosa, talvez até mais controladora. Acho que na minha juventude sempre quis desafiá-la para saber até que ponto ela me deixaria ir. Não deve ter sido fácil me criar (rs), mas ela sempre dizia: “- Não crio filho para mim e sim para o mundo”. É como se ela tivesse me deixado subir em todas as árvores – as mais perigosas – e mesmo alertando que eu poderia me machucar, ela nunca me impediu de ir. Caí muitas vezes e ouvia um “eu te avisei!” sempre junto de um abraço. Então algo aconteceu, porém, nos últimos anos – os primeiros da minha vida madura – eu passei a admirá-la imensamente. A alegria, a leveza com os outros, a não necessidade de ser o centro das atenções, a facilidade de lidar com todos. Num momento anterior à quarentena, estávamos voltando da praia de metro, era fim de tarde e o vagão estava cheio, em um espaço de algumas estações, simplesmente ela estava fazendo piada e fazendo desde o menino vendedor de mate até a gatinha zona sul se esbaldarem. Ela desceu antes de mim e logo que saiu todo mundo comentava: “- Gente, que figura a sua mãe”. Tenho muito orgulho disso. (Nossa, estou me esvaindo em lágrimas, rs).

 

ESCOLHAS DA OLIVIA MERQUIOR:

Luanda Vieira

Luanda Vieira é capricorniana, jornalista, fotógrafa e bailarina clássica. Ela costuma dizer que esta mistura é coragem e poesia ao mesmo tempo. Apaixonada por street style e observadora de comportamentos, atua como Editora de Moda da Glamour e é a representante do Brasil no Comitê Global de Diversidade e Inclusão da Condé Nast.

1- Podemos dizer que nossos corpos são sempre político-estéticos, marcados por diversas experiências coletivas e individuais. Pensando dessa forma, quais subjetividades te mobilizam e te fazem compreender quem você é e o que você ama vestir?

Ser bailarina durante 20 anos, com direito a roupas justas para evidenciar o corpo magro e a obsessão pelo peso, me fizeram caminhar para o lado oposto na moda. Gosto de usar tudo oversized. Aliás, quanto mais largo melhor. Foi uma escolha para me esconder após tantos anos sendo julgada pelo peso; mas que se tornou a minha marca registrada, onde eu me vejo e encontro. O gosto pelo “largo” também revela o meu jeitão livre e solitário. Gosto de seguir do meu jeito, falar no meu momento, me aproximar no meu tempo. Aos 31, principalmente durante a quarentena, tenho pensado muito nas interferências externas que me fizeram assim. Ainda não tenho uma conclusão, mas até agora tudo me leva às discussões sobre raça e o lugar do negro na sociedade ser diferente do que eu sempre busquei para mim. E consegui.

2- Sabemos que existem diversos tipos de feminilidade, e em nosso processo de auto-conhecimento estamos o tempo inteiro nos redescobrindo e nos reconstruindo. Como você abraça a sua própria feminilidade hoje, assim criando a mulher que você é e deseja ser?

Mudar de cabelo sempre que me dá vontade, sem pensar no que agrada o externo, é o meu maior contato com a minha feminilidade, que pra mim significa ser livre. Me sinto viva com todo o processo entre começar a sentir que preciso mudar, procurar referências e “trocar” de imagem. Raspei e passei pela trajetória de me descobrir feliz comigo, mesmo com todo machismo em relação ao corte. Depois disso, qualquer trança colorida ou voltar a usar o meu cabelo natural nunca mais foi uma questão.

3- Pensar arte é dar expressão ao corpo e escuta-lo como vulnerável, sensível e transcendente. Como você relaciona o belo àquilo que você desenvolve no seu trabalho?

A ideia de belo está sempre mudando por aqui. Hoje tem sido o coletivo; a voz de todas nós juntas. No trabalho: dar visibilidade e ocupar espaço.

4- A marca Angela Brito é voltada para o slow fashion, nossas produções são locais e desenvolvidas para um público que está interessado em repensar a forma como as roupas são produzidas e consumidas. Que tipo de moda você gosta de consumir? Como você à incorpora ao seu estilo de vida, ao seu cotidiano?

Acredito que como todo mundo, fui mudando e me reconhecendo em histórias ao longo dos anos. Contar e ouvir histórias, aliás, é o meu maior tesouro e isso também vale para o meu armário. Tenho consumido histórias que me identifico. Histórias exclusivas. Hoje, principalmente neste momento, priorizo a moda de afroempreendedores e pequenos produtores.

5- A ligação que mantemos com nosso lugar de origem são muito importantes enquanto referência na nossa trajetória. Quais memórias do passado, do lugar de onde você veio, te inspiram em relação ao seu trabalho?

A força e a alegria do coletivo. Crescer num bairro completamente residencial, em São Paulo, me permitiu viver as diferenças da rua, conhecer os meus vizinhos e passar os finais de semana correndo para cima e para baixo. Com certeza vem daí a minha paixão pelo street style. O comportamento que surge da rua me emociona. Revezar este tempo com o balé clássico na infância também me trouxe o encanto pelos figurinos e a história… da dança, da arte, da moda, da música.

6- Considero que as mulheres das nossas famílias têm um grande papel na construção da nossa subjetividade e percepção do mundo. Quais são os ensinamentos mais importantes que você recebeu dessas mulheres, e que você leva como orientação pra sua vida?

Nossa! São tantas coisas, mas vejo na minha vó e na minha mãe um senso enorme de justiça e honestidade o tempo inteiro. E é esse mesmo senso que me guia nas relações e no trabalho. Hoje entendo que toda essa preocupação com a transparência vem da desconfiança da nossa cor, mas nos torna gigantes.

ESCOLHAS DA LUANDA VIEIRA: